RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Sexta-feira, Março 25, 2005


Renè Magritte

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Domingo, Março 20, 2005

NOVO E-MAIL

Olá, gente!

Agora estou com e-mail novo, pois o meu do bol é de pedir miséria! Pois bem, continua o mesmo porém agora ao invés de bol é gmail.
Então, cé está meu e-mail para contatos (como se tivesse lá muitos): lfcalaca@gmail.com. O da bol continua valendo: lfcalaca@bol.com.br.
Quem quizer textos, pode pedir! Quem quizer mardar textos para mim, pobre criatura compulsiva, aceito também. Só manerem na pornografia, pois sou um minino púdico. hehehehehehee.

É isso!
Um abraço a todos,

L. F. Calaça

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Sábado, Março 19, 2005


Renè Magritte


O DESEJO

O desejo atravessou o escuro usando roupas de verniz.
Transformando o corpo em escultura ardendo em carvão
de brilho incandescente azulado.
As elipses e os eclipses das luzes desligadas, e o corpo
afogado em suor e soluço naquele beijo sem lábios.
Ave de asas verdes penduradas no neon.
Criaturas transitórias de sete vidas no telhado.
Poema atravessando as janelas envidraçadas.
O orgasmo fragmentário das rosas ametistas.

Crianças nuas brincam atrás das esferas de gude.
O suor doce das nuvens sobre o palito e a labareda.
Fatos desenhados em tinta invisível, filmes monocromáticos
e reflexos diluídos na espelho invertido.
A prosa e o degustar de tesouras e mamilos. Serenata
insensata de idéias e castanholas.
Profundas dores afogadas no espasmo e na feitiçaria.
Dormem os insones enquanto a brisa arrasta o tema
implicitamente controverso.
Quero o pálido sabor das noites brancas.

Figuras imóveis na lareira ondulada e deserta.
Sangue escorrendo do canto da língua sonâmbula.
Passos calados correndo sem partida ou fim.
As idéias memoriais dos quatro anjos e quatro
esculturas de bronze.
Sinestesia... Pirotecnia... Malabarismo...
Traços nas faces contornadas por vinho.
Orquídeas cinzas.

Meu desespero é alimento indispensável da loucura
e claustrofobia.
Pinturas surrealistas na imensidão da tourada.
Flechas aladas derretem os horizontes imperfeitos.
O bonde atravessou meu peito feito de eco e vácuo.
Encontros desencontrados entre peões, bonecos gigantes e
argolas acrobatas.
Trago o ponto eqüidistando do paraíso.
Deixo cartas incendiadas na prateleira sonolenta.

O mistério é o signo do homem diamante.

(L. F. Calaça | 14/11/2004)



GIRASSOL NA LAPELA

O pião gira sobre o caracol
e do silêncio nasce vermelho e gigante
o girassol que segue o ciclo descendente
da Lua sorriso de lábios finos.

Milhares de pés dependurados no teto
fazem o descalço firmamento ambulante,
e as sereias dançam a sincronia das ondas
feitas de espuma e de gargalhadas sufocadas.

E os girinos beijando o beijo de língua das rãs,
e os vaga-lumes acendendo lágrimas no divã,
e o beija-flor acorrentado ao pé da mesa torta,
e o sonho derramado como álcool na carpete.

As ternuras das aves brancas de origami,
os incêndios e terremotos sob a cúpula de acrílico,
os desejos submersos na memória perdida no vendaval,
e o terceiro instante em que acorda sozinho no breu.

O pião gira sobre os caracóis
e os girassóis vertem lágrimas ensangüentadas.
Morre o poeta das lascas de vidro
e o paraíso perde-se no nada.

(L. F. Calaça | 15/11/2004)



TIRÉSIAS

As aves de Apolo arrancaram meus olhos
para que visse a cegueira e fosse sábio no caos.

A escuridão é o silêncio repleto de ecos
e as sentinelas velam os corpos que queimam.

As lanças simulam o tropel de cervos bêbados
e o tiro desliga o segundo do mistério temporal.

Asas azuladas nas cinzas e nas tragédias longínquas.
Sou o signo tranqüilo de quem vive em ruínas modernas.

Transgrido as leis dos deuses e dos homens
e danço o tecno, enquanto o mundo se desfaz.

As aves de Apolo arrancaram-me os olhos
e Dionísio fez de meus dedos palavras metafísicas.

(L. F. Calaça | 01/2005)

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PIROLEMA

Triunfaram os advérbios de negação. A representação sintomática deste delito sem rastros. Que os peregrinos se partem ao meio, enquanto arrastam linhas de sangue no chão vazio de azulejo. Transbordam! Transbordam os segmentos ensolarados e debruçados no solavanco, desgraçadamente desgraçado. Desgraçadamente jamais. Tiroteios na escada em espiral e cantos orquestrais ensurdecendo todos os vidros estilhaçados dos vitrais. Guardaram o pergaminho onde todos os caminhos são nenhum. Não sei dizer os mistérios pubianos ou o olhar entre duas bandas de Lua. As aves penduradas pelos pés se debatem, enquanto tentam voar e se enforcam. Os transeuntes não despertam do nonagésimo sonambulismo. Perambulam pela ruela que é corredor xadrez cor de visgo. As lentes sobressalentes não enxergam o desejo infinito de finitude, mas o diretor de teatro grita até ficar sem voz. O sintoma mudo da ausência de tombamento. Transferiram Madalena para o setor de queimados piromaníacos. Ateou fogo em seu próprio corpo com o pensamento. Apenas queria acender um cigarro barato e cancerígeno. Que me separaram do toureiro de asas verdes. Trituraram os ossos dos duendes acordados. A peregrinação começou pelo realismo seco e frio de um anatomista. Dessecando, fatiando, apalpando as veias que não vertem mais sangue, apenas éter. O corpo borrachudo e o pôr-do-sol atrás da cama gradeada. Dêem-me as chaves para libertar os leões siameses. As trilhas levam ao sétimo andar do arranhacéu-subsolo. Jogo, jogarei, jogava as calças pela janela arrombada em sinal de censura prévia ao sentimento de dor e culpa. Ser espelho sem sentir as pontas dos cílios. Jamais, nunca, não, todos os verdadeiros compassos de trigonia. Não derrubaram os vasos de plástico no tapete de pele humana. Não alimentaram os pássaros famintos. Tragam, drenem o soro linfático que povoa meus gânglios enfartados. Transformo o canto em desejo de anulação. Temo que o zero seja o círculo perfeito. Espremo o caldo morno do azul bêbado dos arcaicos simbolistas medievos. Sou tão mutável quanto a escultura milenar que virou duna. Penetrem as noites, onde a cartomante desfaz os fios e lança flechas nos pescoços agônicos. E os pássaros devoram a loucura de um instante. Madalena explode e sai faíscas brancas.

(L. F. Calaça | 02/12/2004)

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Sexta-feira, Março 18, 2005

VIZINHANÇA PREOCUPANTE


Perderam.... Esqueceram-se... Mentem para si mesmos... Nem percebem isso... Seguem os dogmas de hominídeos perdidos no tempo e no espaço... Ontem, percebi que a sensibilidade não está na lista de prioridades da maioria... os poucos que a colocam na sua devida posição têm seus corações estraçalhados pelos já robotizados. É triste, a pouca importância que dão a essa situação. Já se tornou tão corriqueira e cotidianamente aceita quanto os assaltos, estupros morais e coisas afins que avistamos na nossa esquina. A frieza é muito promissora, Tão profética quanto os novos fanatismos que surgem a cada instante decorrentes das variadas interpretações de um único manuscrito. O que pode tê-los traumatizado? Ninguém consegue tirar da minha cabeça que, na verdade, nada os traumatizou unicamente. São frustrações vivenciadas por terceiros que invadem os corações apavorados dos inexperientes e os convencem de que ser sensível e seguir o coração é tolice. Com isso, mentem. Mentem descaradamente. E o pior, mentem para si mesmos. Como se isso não fosse suficiente, ainda tentam me convencer. Sem dúvida, não há vida sem risco. Não se arriscar é muito cômodo. Abrir mão de certas sensações é muito suicida pra mim. Prefiro viver a vida de maneira mais intensa, sentindo mais. Concordo que o sofrimento se torna integrante da vizinhança. E que, de vez em quando, ele vem pedir um pouco de sal. Mas, vale lembrar que isso tudo faz parte de uma coisa só. Felicidade e tristeza são faces opostas da mesma moeda. Querer ser feliz sem ficar triste de vez em quando é negar a oferta da moeda. É negar a sua própria essência corajosa. É preciso compreender os riscos para poder enfrentá-los e ter confiança de que o ser é maior do que os sentimentos negativos. É perceber que o dia está lindo lá fora e que vale a pena se aventurar.

Bruno Barreiros (07/03/05)

[ Bruno é meu colega lá da faculdade, do curso de Administração que pediu transferencia interna, ou vagas residuais, sei lá, para Psicologia, na UFBA. Um amiguinho de idéias "holísticas". ]


Sun and Life, Frida Kahlo (1947)

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Sábado, Março 12, 2005

SOLEDAD

O leite qualhado no copo de vidro. Pedaços de máscara de cerâmica branca. Olhar negro das janelas, lá fora, enquanto a noite ronda. Soledad tocando lentamente, quase inaudível. Gotas de vinho tinto brincando sobre os dedos verdes. Uma dor, nos ouvidos, estalos de tímpano. Lágrimas precipitando no penhasco. O nariz, longo, reto e grosso na extremidade fria. As sobrancelhas como pernas, peludas, de aracnídeo. Os dedos sobre os lábios, muchos, manchados de batom vermelho, permanente. As unhas crescidas, roídas, ferindo a pele que deseja... Não! Não deseja mais nada. Espera. Os olhos verdes, como os dedos, entreabrem-se e contemplam o espelho tatuado com rugas. Marcas profundas, negras, gretadas, na pele seca, opaca, vazia. Um rio intermitente, vazante. O lodo incrustado. Árvores enraizadas sobre o céu da cabeça toda branca, encardida. Na parede, um quadro em pedaços. Um beijo pálido. Um gato de olhos grandes, cinzento. A cadeira balança para trás, para adiante, imóvel no seu lugar. Uma escultura de cera. A máscara de cerâmica partida, pisada pelos pés largos e azuis. Um sorriso morto nos lábios tintos. A unha medindo o cumprimento da cicatriz de um lado a outro. O nariz. Trágico ensaio de um absurdo. Suas luvas trazem um anel, grande, negro, de luto. Seus dentes mergulhados no copo de leite qualhado. Embranquecem, apodrecem, misturam-se e viral cal virgem. Alguém atravessa a sala. Uma mulher de branco. Uma seringa nas mão. Um tufo de algodão embebido em éter.
- Sua dose noturna.
- Não sinto dor... ainda.
- Melhor. Então é melhor, pois não sentirá mais nada.
- É preciso... ainda?
- Assim dormirá melhor.
- Hum.
Fecha os olhos. A carne trêmula exposta. A nota última da canção. O grande nariz, longo, reto e grosso na extremidade fria, se conforma. Adormece sentada na cadeira que balança para trás, para adiante.
Soledad... Soledad...
Morre em silêncio.

(L. F. Calaça | 13/03/2005)

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Sexta-feira, Março 11, 2005


Skull, Andy Warhol

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Domingo, Março 06, 2005

ESPERANDO GODOT

(...)

ESTRAGON: - O melhor seria me matar, como o outro.

VLADIMIR: - Que outro? (Pausa.) Que outro?

ESTRAGON: - Como bilhões de outros.

VLADIMIR (silencioso): - A cada um a sua pequena cruz. (Pausa.) Até que morra. (Pausa.) E seja esquecido.

ESTRAGON: - Nesse meio tempo, vamos conversar com calma, já que a gente é incapaz de calar a boca.

VLADIMIR: - É verdade, somos inexauríveis.

ESTRAGON: - É para não pensar.

VLADIMIR: - Temos essa desculpa.

ESTRAGON: - É para não ouvir.

VLADIMIR: - Temos esse motivo.

ESTRAGON: - Todas as vozes mortas.

VLADIMIR: - Fazem um ruído de asas.

ESTRAGON: - De folhas.

VLADIMIR: - De areia.

ESTRAGON: - De folhas.

(Silêncio)

VLADIMIR: - Falam todas ao mesmo tempo.

ESTRAGON: - Cada uma para si.

(Silêncio)

VLADIMIR: - Talvez sussurram.

ESTRAGON: - Murmuram.

VLADIMIR: - Cochicham

ESTRAGON: - Murmuram.

(Silêncio)

VLADIMIR: - O que é que dizem?

ESTRAGON: - Falam de suas vidas.

VLADIMIR: - Viver não foi bastante.

ESTRAGON: - Tem que falar da vida.

VLADIMIR: - Morrer não foi bastante.

ESTRAGON: - Não é suficiente.

(Silêncio.)

VLADIMIR: - Fazem um ruído de plumas.

ESTRAGON: - De folhas.

VLADIMIR: - De cinzas.

ESTRAGON: - De folhas.

(Longo silêncio.)

(...)


In: BECKETT, Samuel. Esperando Godot. São Paulo: Abril Cultural, 1976, Ato II, p. 112 - 115.

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Sábado, Março 05, 2005

O NU

O corpo nu, imóvel, estendido na cama sem pregas. O corpo nu e imóvel, indefinido, no reflexo do espelho. Imóvel a cada instante, sem sombras nas paredes. As linhas delineadas a lápis. O corpo feito de carne e sangue, sem respingos. A camisa mostarda estendida no chão sem cor. As veias das mãos e dos pés, pequenas saliências ainda imperceptíveis. Imperceptível. O corpo construído pelo olhar fixo e vago, negro e calado, diante da porta fechada, encoberto pelo cabelo que esconde. Olhar fixo. A cama sem pregas. A pele sem pregas, estendida em ondas. Na mesa do canto, um óculos de grau e uma... Imprecisão. Um espaço aberto, um sonho pendendo e surgindo das pontas dos dedos. O paraíso deserto e feito de tinta invisível. Silêncio. Imóvel no claro-escuro. Tudo branco e preto, e a camisa mostarda estendida no chão. Alguma lembrança, uma calçada retomada após um tempo anacrônico. A impressão falsa de um movimento, o ar circulando sem impulso. Uma das mãos vazias encobrindo o sexo. Indefinido. Nada à espera. Uma clássica fotografia de um corpo nu, estendido, entre... perspectivas. Ângulos. O corpo nu. Ninguém observa o olhar calado. Falas entrecortadas por sons mudos. Branco, negro e mostarda. Um brilho quase dourado. A cama flutuando na ausência de cores. Sem emoções possíveis. Impossibilidade. Um dia... há muitos segundos pretéritos... o corpo sem face, sem sexo, sem... Linhas delineadas a lápis, cor de ostra. Cor de vento. Cor de mistério. O belo é a casca. Pele. Insensatez, minha incomunicabilidade. Sinais de fumaça, dissipados no ocaso. Silêncio imóvel no claro-escuro. Paralisia. Saudade. Vontade aparente. Não há nem haverá alguém. O corpo estendido, escondido, minguante como as ondas que retrocedem. A Lua decai e se esfacela, como cela, como... O corpo nu impregnado de fios, teias, pêlos. Sem respingos. Sem toque. Indefinido reflexo no espelho. El... a... o... O braço relaxado sobre os vidros. A parede, a cama sem pregas. A alma. O corpo nu é um corpo. Ninguém sabe, nem saberei. Encoberto pelo cabelo que esconde. Eu. El... o... a... Ninguém. O belo é a casca. Um dia... Ângulos. Voyeur. Nada.

(L. F. Calaça | 03/03/2005)

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Terça-feira, Março 01, 2005

SINISTRO CAIS
(poema aos som de Adriana Calcanhoto)



Quero Amor na integridade
de minhas células e poros,
preenchendo-me, enlouquecido.

O grande masturbador morreu
Perdido numa overdose de solidão.
Vejo-o, exemplifico-me.

Derramo-me pelos cantos, pelas paredes,
e misturo minhas chamas em tinta,
em vibrações, em solavancos, em dores.

Quero o grito ecoando sem espera,
entre os mil mundos envidraçados,
entre as folhas nascentes no asfalto.

Fusão de linhas anatômicas
na perfeição das dobras de cetim-ilusão.
Pés, corpos, espelhos, mãos.

Desfaço-me em partes hemisféricas
em soluço, em desejo assimétrico,
entre dedos, olhos e fluido intenso.


(L. F. Calaça | 28/02/2005)

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